Issue 1 : Fall 2010

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  • Guellwaar Adún

    Who is Guellwaar Adún?


    Guellwaar Adún é educador, compositor, produtor e vocalista da...

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O Egun de Thomé de Souza


Eu sou Thomé de Souza!

Somente Tom para os íntimos;

eu sou o portuga que veio para destruir

e aniquilar a alma e a memória desta Terra de Vera Cruz,

futuramente conhecida por Brasil.

Eu sou Thomé de Souza!

Não tomai meu branco nome em vão, mas vinde a mim todos os Índios

de braços fortes, para erguerdes a cidade de São Salvador,

que de Sotero nada tem,

mas, trago-vos os Jesuítas para o vosso bem.

Eu sou o seu Tom!

Senhores gentis, não vos assusteis, por favor, não vos espanteis!

Como pode ser tão atrasada e primitiva a vossa cultura, já que não entendeis

que este pendurado à cruz é o nosso Deus, ou melhor, o único filho de Deus?

O que?

Quem o crucificou?

Ora, bolas, nós mesmos, pois!

Não, não vos preocupeis, muito tempo teremos para ensinardes

que tanto as vossas entidades quanto os Orixás, Inquices e Voduns nada são,

e que os vossos costumes

são limitados, ridículos e estúpidos.

Eu sou Thomé de Souza!

Não sabemos plantar, não sabemos trepar, não sabemos pensar,

não sabemos amar, não sabemos respeitar, não sabemos dançar,

não sabemos filosofar,

festejar, celebrar, caçar,

viver, sorrir, sonhar…

mas,

milhões e milhões de Africanos seqüestraremos para cá.

Sem eles nada somos, nada seremos, nada podemos!

Eu sou Thomé de Souza!

O destruidor de lares, o estuprador de mares,

e desconhecedor deste instinto chamado Amor.

Eu sou - Tom!

Primeiro administrador da miséria,

exclusão e desconforto

dos Índios e dos Negros;

à esses últimos dizíamos que não tinham Alma.

Algumas chicotadas, ou muitas chicotadas,

no lombo, na face, na bunda, na cara,

pelourinhos, forcas, estupros, maldades

-mera intimidação moral,

do contrário, poderiam voltar-se contra nós,

os grandes ‘pais’ desta Nação.

Eu sou Thomé!

Diversos tipos e qualidades de maldades organizei

para realizarmos nosso projeto de colonização

branca,

nesta terra que batizamos de Brasil;

e brasileiro, como tão bem sabeis,

foi o nome dado aos primeiros devastadores de pau-brasil;

aos primeiros madeireiros;

aos pioneiros em matéria de Crimes Ecológicos.

Eu sou Thomé de Souza!

Nunca amei nem beijei minha mulher,

nunca a tratei com respeito e carinho,

e não vejo dignidade nem vida inteligente nesse ser de saias e longos cabelos.

Eu sou Tom!

O pior e mais competente fuzil da sociedade

branca

e

RACISTA

Internacional,

atuando nestas Terras;

onde um dia o sabiá ecoará seu canto dizendo que sabia,

mas não sabe mais,

dos avanços tecnológicos Africanos,

e dos Primeiros Habitantes desta Terra

que tanto nos incomoda tomar conhecimento

e ter de aceitar quão atrasada, triste, ridícula e burra é a chamada europa.

 

(Inspirado em “Colombus Ghost”, do poeta Africano-Jamaicano Mutabaruka)

Afrobeat Journal - Article

Comments [13]

Subject:
ismael
From:
ismaelsanto30006 [AT] gmail [DOT] com
Content:
Guel... estou mesmo sem corrido esss dias.... em busca de dia melhores!!!! sabe não tem como não ler isso e não ficar a pensar.. aqui na comunidade (Itapagipe - cidade baixa) tem uma escola com o nome desse carinha ai, lembrei dos bandeirantes ...a desgraça que esses cara fizeram e é visto como .... mas enfim... Olha, massa o visual , isso a juda muito a leitura..... o blog tem uma estetica maravilhosa! axé! paz e luz!

Subject:
Justificativa para o discurso
From:
nadia [AT] bdgbrasil [DOT] com [DOT] br
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Gostei muito de "O Egun de Thomé de Souza" pelo valor literário e por remeter à necessária discussão sobre o racismo. Li todos os comentários e vejo que há uma quase unanimidade na apreciação do texto, exceto o último comentário que faz algumas críticas. Mas, a ressalva feita pelo próprio autor do post (ainda que seja uma análise prímária e sem compromisso), explica. Acredito que todos que forem além de uma olhada descomprometida só terão aplausos e palavras de incentivo para o poeta. Precisamos de vozes ativas e altivas.

Subject:
Opinião
From:
uiaralopes [AT] yahoo [DOT] com [DOT] br
Content:
Gwe quando li fiquei pensando resta mais alguma coisa para dizer? Daí, fiquei ainda mais pensativa. Nos últimos tempos estava aqui eu imaginando como escreveria no papel todas as minhas angustias, que são frutos das mazelas da colonização brasileira. Vou explicar por que: Eu estava revendo um texto de Bell Hooks (acho que é assim que escreve o nome dela) chamado Vivendo de Amor, pois ainda preciso entender porque as nossas famílias negras estão tendo uma relação tão fratricida e porque nossos jovens estão tão prontos e entregue as drogas, queria acreditar que a justificativa era somente a pobreza, mas ai minha mãe fala que sempre foi pobre que a coisa mais fácil para justificar o abandono que nos encontramos e justificar a violência é colocara culpa na pobreza e eu fiquei pensando verdade mãe. O Racismo, a exclusão, a Europa e numa dessas coincidências da vida você acaba de me dar o material que eu precisava para dizer isso. Se me der licença vou fazer isso muitas vezes quando for falar do nosso processo de colonização e de que legado ficou para nós. Sublime o seu poema, dolorido, forte e real, o Tom continua nos causando os mesmos males e carcomendo nossa história da mesma forma, as chicotadas todos os dias quando um jovem negro morre de bala ou de overdose, batem todos os dias na nossa cara quando afirmam que todo negro é ladrão e que toda mulher negra só serve pra saciar desejos e não para casar. Nego amei seu poema, porque ele simplesmente fala de nós e falar de nós é sempre muito bom. Tenho muitas outras coisas para falar sobre ele e vou fazendo isso aos poucos para que não ficasse muito, muito chata. Bj no coração de quem muito aprende lendo todos os seus escritos.

Subject:
Parabéns
From:
queila [DOT] rosa [AT] gmail [DOT] com
Content:
Maecus, achei seu texto muito bom e se voce me autoriza-se eu passaria para alemao, para apresentar também aqui no dia do nosso evento da Consciência negra! Parabéns negao!! RACISTA Internacional, atuando nestas Terras; onde um dia o sabiá ecoará seu canto dizendo que sabia, mas não sabe mais, dos avanços tecnológicos Africanos, e dos Primeiros Habitantes desta Terra que tanto nos incomoda tomar conhecimento e ter de aceitar quão atrasada, triste, ridícula e burra é a chamada europa.

Subject:
Resumo da real história brasileira
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fabioarrudaesilva [AT] gmail [DOT] com
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Esse cara aí, Guellwaar Adún é meu amigo.Um combativo amigo. VIVA!!!

Subject:
Preciso e Precioso
From:
Marlon Marcos
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Meu caro, Seu poema desenha aquelas imagens que precisam discutidas... Traz o TOM como categoria genérica do branco que aviltou tantas outras civilizações; esmigalhou porjetos outros em nome da tal civilização que nunca houve; o branco que ainda dá sentido a um tipo de Europa que espezinha a diferença. Este Tom que vc denuncia que violentou tantas indígenas na construção desta nossa Bahia e Brasil. Espalhá-lo, para que com outros argumentos convergentes, ensinarmos o nosso povo noutra perspectiva historiográfica. Quanto sentido sua bela literatura nos traz. Axé. Vc como sempre: forte e lindo! Okê.

Subject:
Belo poema!
From:
henriquebeat [AT] gmail [DOT] com
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Poema anti-épico dotado de uma força e uma intempestividade singulares! Parabéns!

Subject:
Comentário
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aninha [DOT] bia1 [AT] hotmail [DOT] com
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Maravilhosa composição que nos remete inevitavelmente a uma necessária reflexão dos tempos distantes...

Subject:
O egum de Thomé de Souza
From:
valeriapereirada [DOT] silva [AT] yahoo [DOT] com [DOT] br
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MARAVILHOSO!!! Eles podem calar a sua voz, mas não os seus pensamentos! Podem acorrentar seu corpo, mas não a sua mente! Vc é um poeta, poeta da vida. A sociedade moderna valoriza muito a tecnologia e pouco a sabedoria, parabéns!!! Amei...

Subject:
O Egun de Thomé de Souza
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bahiabeautiful [AT] yahoo [DOT] com
Content:
What a historical sense and powerful imagings.

Subject:
O Egun de Thomé de Souza
From:
bahiabeautiful [AT] yahoo [DOT] com
Content:
What a historical sense combined with powerful imagings.

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Firme e Forte
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viviamcaroline [AT] gmail [DOT] com
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Palavras corajosas de quem sabe e acredita no que diz. Precisamos de vozes como essa que nos signifique e nos defenda e que principalmente nos conduza a também dizer. Que abra caminhos, mentes e ouvidos. É isso aí! Salve! Axé!

Subject:
A poesia livre
From:
cursomaguma [AT] hotmail [DOT] com
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GOSTEI DO FOCU NARRATIVO NA PRIMEIRA PESSOA, MAS FALTOU UMA JUSTIFICATIVA PARA O DISCURSO DO MAL FADADO EGUN. AINDA QUE SEJA ESTA UMA ANÁLISE PRIMÁRIA E SEM COMPROMISSO. O AUTOR NÃO PRECISA PREENCHER TODAS AS LACUNAS DO SEU TEXTO, MAS ISSO AINDA É UM PROBLEMA NA POESIA LIVRE, PODE-SE O QUE QUISER E O QUE BEM SE ENTENDE SEM O COMPROMISSO FORMAL, ENTRETANTO ISSO PODE PREJUDICAR A CRIATIVIDADE E A ORIGINALIDADE DO AUTOR. GOSTO DO ESTILO, MAS É DIFICIL A ANÁLISE. O ASSUNTO É ESTIMULANTE MAS O DISCURSO DO POETA FAZ PARECER QUE ESSE EGUN É DE EKÊ.

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